quinta-feira, 8 de março de 2012

A pintora das obras do Metrô


Fonte: Estadão

Ela sabe tudo de Metrô. Há quatro décadas, Diana Dorothèa Danon registra na memória e no papel cada avanço das linhas. Aos 82 anos, a artista plástica tem mais de 500 aquarelas catalogadas e continua na ativa. Agora, desenhando a construção do primeiro monotrilho de São Paulo, que já muda a cara da zona leste. Para a pintora, cada intervenção urbana tem sua poesia. No caso do Metrô, ela pode se revelar em escavações, vigas ou túneis, que sob seu olhar ganham movimento e cor.

Com capacete na cabeça e lápis nas mãos, nada escapa de seu traço. Até a chegada do primeiro tatuzão, ainda desmontado, foi registrada por Diana no Porto de Santos. O imenso equipamento, que corta o concreto para a expansão subterrânea da rede, é um dos destaques do conjunto. Na Linha 4-Amarela, por exemplo, o funcionamento de um modelo mais moderno serviu de inspiração e arrancou palmas da artista, que registra seu trabalho em um diário.

Em 24 de novembro de 2008, ela escreveu: “O subterrâneo da Estação República fervilha: engenheiros, operários, imprensa. Todos aguardando o meio-dia, horário estipulado para o início do trabalho. Minha memória, enquanto espero, vai passeando pelas diversas couraças que desenhei durante meus 36 anos de ‘ser metroviário’. E, de repente, um falatório mais alto e a cabeça de corte da couraça começa a girar. Emoção! Palmas!”

Cada pintura que finaliza acompanha um relato por escrito, que funciona como uma ficha técnica. Os textos são publicados no site do Metrô, que serve ainda de acervo online da obra de Diana. Apenas a Linha 1-Azul não está disponível na internet - o conjunto pode ser visto na biblioteca da empresa, onde ficam guardados os outros originais.

Paparicada. 
No canteiro de obras, funcionários fazem fila para cumprimentar Diana. Sempre simpática, ela toma café com eles, enquanto escolhe o melhor ângulo para mais uma aquarela. “Às vezes vou ao local apenas para conhecer o espaço. Com a ideia na cabeça, volto no dia seguinte. Após 40 anos, não me canso de desenhar o Metrô”, conta.

O acervo é resultado de suas andanças. Antes mesmo de retratar as obras do Metrô, a artista já tinha o costume de desenhar construções. Primeiro, foram as igrejas. Depois, os casarões da Avenida Paulista. As duas séries renderam publicações em parceria com a USP.

“Nunca quis pintar natureza morta. Meu interesse sempre foi retratar a cidade. Depois de pesquisar a arquitetura, percebi que um novo tipo de intervenção acontecia em São Paulo. Era a construção do Metrô. No começo, fazia minhas aquarelas de forma voluntária. Depois de concluir a Linha 1-Azul é que fui contratada e passei a ser artista e funcionária do Metrô. Tenho crachá”, diz.

Hoje, entrega cerca de três pinturas novas por mês. Mas nem sempre foi assim. Quando as obras do Metrô foram paralisadas e por isso não tinha o que desenhar, Diana mudou de ares. Foi contratada para registrar cada detalhe da construção da Usina de Itaipu, na divisa com o Paraguai.

De volta à capital, foi escalada para registrar a Linha 3-Vermelha. “Nessa época comecei a desenhar usando calça comprida. Antes, só usava saia. E foi ainda nessa época que começaram a surgir mulheres nos canteiros de obra. Mas eram poucas perto de hoje, que tem um monte. Ao longo do tempo, a vida mudou dentro e fora das estações.”

A rotina da artista também se modificou. De lá pra cá, Diana publicou mais dois livros e participou de exposições no Brasil e no exterior. Em todos os trabalhos, a marca inconfundível da aquarela. “Desde pequena, quando desenhava retratos em casa, já usava nanquim e papel canson. São minhas ferramentas, que dão vida à minha arte.”

Ao longo de quatro décadas, muitas imagens ficaram gravadas na memória de Diana, que ainda se surpreende com os novos métodos de construção. “A Estação da Luz, na Linha 4-Amarela, por exemplo, é tão diferente das primeiras. O teto parece uma teia de aranha.”

Apesar de exímia conhecedora da história do Metrô, no entanto, Diana só anda de táxi. “Acho que nem saberia circular pelas estações depois de prontas. Mas, quando vejo um daqueles mapas das linhas, fico bem orgulhosa.”

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